MSF supports the Ebola Transit Center in Bunia
Relatório Anual 2019

A resposta ao Ebola na República Democrática do Congo

Por que as novas ferramentas médicas não foram plenamente eficazes?

Em agosto de 2018, as autoridades da República Democrática do Congo (RDC) declararam um surto de Ebola, que se tornou o maior da história do país. A epidemia se espalhou pelas comunidades nas províncias de Kivu do Norte e Ituri, que já haviam sido fortemente afetadas por décadas de conflito armado

Desta vez, parecia que estávamos melhor preparados do que em surtos anteriores de Ebola. Quanto à resposta, tínhamos novas ferramentas que poderiam potencialmente dar um fim mais rápido ao surto. Essas ferramentas, que talvez pudessem determinar a duração e extensão do surto, incluíam duas vacinas e dois medicamentos terapêuticos. Desde o início, tivemos uma vacina com eficácia comprovada. Durante o surto, Médicos Sem Fronteiras (MSF) participou de um ensaio clínico que determinou dois novos medicamentos terapêuticos eficazes para tratar a doença, e testamos uma segunda nova vacina, a fim de reduzir a transmissão. Apesar da eficácia comprovada dessas novas ferramentas, duas em cada três pessoas com Ebola morreram e o vírus continuou a se espalhar por mais de 18 meses.

Com os recursos promissores à mão, deveríamos ter sido capazes de reduzir o número de mortes e o número de novos casos. Mas isso não aconteceu. Nem todos foram atendidos por aqueles que respondiam ao surto de Ebola. Em alguns momentos da epidemia, mais da metade das mortes relacionadas ao Ebola estavam ocorrendo na comunidade. As pessoas sequer chegavam aos centros de tratamento de Ebola (CTEs) ou chegavam tarde demais, quando os tratamentos eram menos propensos a impedir um resultado fatal.

Por que essas ferramentas não tiveram um impacto mais positivo?

Os cuidados propostos pela resposta ao Ebola nem sempre atendem às necessidades dos pacientes, incluindo aqueles que não estavam contaminados. Sem a confiança da comunidade, a resposta foi tida como hostil pelas pessoas. Frequentemente, era oferecido às pessoas tratamento em isolamento, longe de suas famílias e comunidades. Considerando que as pessoas percebiam que a taxa de mortalidade de pacientes com Ebola nos CTEs era alta, para muitos, a assistência médica proposta não era suficientemente encorajadora e não oferecia muito retorno positivo.

Nas províncias de Kivu do Norte e Ituri, o Ebola geralmente não é a principal prioridade da saúde. As pessoas nessas regiões enfrentam outras doenças mortais, como sarampo, malária e desnutrição, além de um sistema de saúde sobrecarregado, impactado pelo conflito armado em andamento. A resposta geral foi centrada no surto de Ebola e não nas necessidades de saúde dos pacientes e da comunidade. Ela absorveu muitos dos recursos já limitados do sistema de saúde, deixando muitas pessoas gravemente doentes sem tratamentos essenciais. O fracasso em se concentrar na coordenação em nível local e em fornecer uma resposta individualizada para os pacientes em áreas com alta incidência da doença significou que MSF e outras organizações que enfrentam o Ebola não foram capazes de ganhar a confiança e a aceitação das comunidades.

Uma maneira importante de reduzir o número de pessoas infectadas pelo Ebola é impedir a transmissão contínua por meio da vacinação. A estratégia implementada na resposta na RDC foi a vacinação de pessoas que mantiveram contato próximo com pacientes confirmados com Ebola e

pessoas em contato com esses contatos. Apesar da eficácia da vacina, identificar contatos mostrou-se difícil na prática, com menos pessoas elegíveis para a vacinação, limitando, assim, a eficácia da estratégia de vacinação direcionada. O fornecimento restrito da vacina também afetou a implementação da estratégia e seu status não registrado tornou a vacinação demorada. No geral, a estratégia de vacinação aplicada não impediu a disseminação do vírus com rapidez suficiente. Inicialmente, MSF se concentrou na vacinação de profissionais da linha de frente. À medida que o surto continuava, defendemos uma estratégia adaptada que atingisse mais pessoas e participamos do teste de uma segunda vacina.

Beni ebola treatment center
A boy receives his shot of the investigational Ebola vaccine rVSV-ZEBOV at a vaccination point set up in the community of Kimbangu in the city of Beni, Democratic Republic of Congo. September 2019. 
Samuel Sieber/MSF

Como resolveremos esses problemas no futuro?

Para obter o melhor de qualquer ferramenta médica em uma resposta a surtos, o envolvimento da comunidade e a mobilização social são vitais. Para que isso seja alcançado, pacientes e comunidades devem enxergar claramente os benefícios da resposta.

Progressivamente, nos afastamos das abordagens centradas no Ebola para nos concentrarmos nas necessidades gerais das comunidades. Isso inclui a descentralização da triagem do Ebola para os centros de saúde MSF existentes, a fim de que o tratamento tanto para o Ebola quanto para outras doenças seja oferecido mais próximo das comunidades, realizando mais atividades de divulgação para que os pacientes possam procurar nossa assistência antes que seja tarde demais.

Também precisamos garantir que o tratamento seja adaptado às necessidades específicas do paciente, em vez de tratar todos da mesma maneira. Para alguns pacientes, pode ser possível fornecer atendimento domiciliar; outros poderiam ser tratados em unidades de saúde menores, mais perto de onde moram. Algumas pessoas em risco de infecção podem se beneficiar do uso imediato de tratamento profilaxia pós-exposição, enquanto outras podem precisar ir a um centro de saúde regularmente.

Em termos de prevenção durante um surto, também devemos facilitar o desenvolvimento e o teste de mais vacinas e de diversas estratégias de vacinação, adaptadas ao contexto e atendendo às expectativas da comunidade. Elas devem ser fáceis de manusear no contexto de um surto, com licenciamento acelerado, se necessário, enquanto a estratégia de vacinação deve facilitar o acesso daqueles que precisam. Para responder melhor a futuros surtos de Ebola, as estratégias de resposta médica não devem ser vistas sozinhas. Abordagens centradas no paciente e na titularidade da comunidade são as verdadeiras mudanças do jogo.

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