Skip to main content
A Rohingya man carries wood through the Kutupalong- Balu Khali mega camp. Cox’s Bazar District, Bangladesh.
Relatório Anual 2018

Rohingyas: nenhum país para chamar de lar

Homem rohingya carrega lenha no acampamento Kutupalong-Balukhali, que em 2018 se tornou o maior campo de refugiados do mundo. Distrito de Cox's Bazar, Bangladesh, agosto de 2018.
© Robin Hammond/NOOR
Ebola disease in DRC: find out how we're responding
Learn more

Mais de um ano após o êxodo em massa de Mianmar, o futuro parece mais incerto do que nunca para os rohingyas. Após a campanha de violência dos militares de Mianmar em agosto de 2017 — uma resposta ostensiva aos ataques do Exército da Salvação Arakan Rohingya —, os refugiados rohingyas continuaram a cruzar a fronteira para Bangladesh. Mais de 908 mil haviam fugido até o fim de 2018.

Embora a escala e a velocidade do êxodo não tenham precedentes, para aqueles familiarizados com a história rohingya isso não seria uma surpresa. Afinal, a perseguição aos rohingyas estende-se por décadas. Uma minoria étnica marginalizada, há muito tempo sujeita a uma terrível discriminação e segregação em Mianmar. Em 1982, uma lei de cidadania tornou-os efetivamente apátridas, além de enfrentarem muitas outras restrições notórias, por exemplo, relacionadas com casamento, planejamento familiar, educação e liberdade de movimento.

Quase 130 mil rohingyas e outros muçulmanos permanecem efetivamente em campos de detenção no centro do estado de Rakhine, incapazes de acessar serviços básicos ou ganhar a vida, enquanto outras centenas de milhares no norte estão quase completamente desligados da ajuda humanitária internacional. Desde 1978, a contínua discriminação e a violência direcionada contra eles fizeram com que fugissem aos milhares para os países vizinhos ou embarcassem em perigosas viagens de barco pelo mar até a Malásia. Hoje, os rohingyas são um povo sem pátria, espalhados pela Ásia e além, com pouquíssimos aliados ou opções.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) trabalha com os rohingyas há décadas — em Mianmar, desde 1994; em Bangladesh, desde 1985; e na Malásia, a partir de 2004. Em agosto de 2017, quando os ataques dirigidos pelos militares de Mianmar forçaram o maior número de todos os tempos de rohingyas a cruzar para o país vizinho Bangladesh, conseguimos aumentar rapidamente nossas atividades no distrito de Cox’s Bazar e prestar atendimento de emergência a pacientes com ferimentos relacionados com a violência, incluindo estupro e ferimentos por arma de fogo, além de traumas graves. Fizemos campanhas maciças de vacinação e, até dezembro de 2018, realizamos cerca de 1 milhão de consultas para condições médicas como doenças diarreicas, doenças de pele e infecções respiratórias, que estavam diretamente relacionadas com a falta de assistência médica em Mianmar ou com suas condições de vida precárias em Bangladesh.

Os rohingyas continuam confinados a campos insalubres e superlotados, incapazes de trabalhar, de receber educação formal ou de ter acesso a serviços básicos. Eles dependem quase totalmente da ajuda humanitária e da generosidade de seus anfitriões de Bangladesh. Suas experiências indescritíveis de violência em Rakhine e a ansiedade sobre o que o futuro lhes reserva exacerbam os problemas de saúde. A disponibilidade de serviços especializados, como apoio à saúde mental ou cuidados secundários gratuitos e de alta qualidade, é extremamente limitada. Notícias de repatriações iminentes em novembro, que foram arquivadas, pois nenhum refugiado estava disposto a voltar, realçaram como a situação dos rohingyas continua precária.
 

Rozia and her two-month-old son Zubair in the MSF hospital in Goyalmara. Many of  the children admitted to the hospital have contracted infections from unhygienic birthing practises, and the unsanitary living conditions in the camp during their first days of life.
Rozia e seu filho Zubair, de dois meses de vida, são atendidos por um médico do hospital de MSF em Goyalmara, distrito de Cox's Bazar, Bangladesh, em abril de 2018.
Pablo Tosco/Angular

No fim de 2018, algumas organizações de ajuda haviam começado a fechar ou a reduzir suas operações em Bangladesh, já que a situação não era mais considerada uma emergência. A resposta tem sido de curto prazo, tratando os sintomas da privação de direitos dos rohingyas, sem discutir suficientemente suas causas. Os países doadores perderam o interesse e, no momento em que escrevo este relato, o financiamento para uma ação humanitária permanece absolutamente inadequado para abordar as principais questões que permanecem sem resposta: o que acontecerá com mais de 1 milhão de rohingyas em Bangladesh, vivendo em campos perigosamente superlotados e miseráveis, sem perspectiva de integração ou reassentamento? Negado o status de refugiados em Bangladesh, eles poderão voltar para casa? Se o fizerem, a que situação estarão retornando? Será que os rohingyas serão forçados a voltar para Mianmar, como foram em 1978-1979 e novamente em 1993-1997?

Essas perguntas também pairam sobre os refugiados rohingyas na Malásia. Como em Bangladesh, nossas equipes testemunham diariamente as consequências de sua marginalização; privados de status legal, ficam altamente suscetíveis a extorsão, abuso e detenção. Sua situação nesses países expõe um fracasso coletivo global de proteger pessoas já tão vulneráveis de outras violações. Assim, requer liderança e solução internacional, não apenas regional.

Kites and children watching us from the bridge.
Crianças rohingyas em cima de uma ponte empinam uma pipa sobre o megacampo de Kutupalong-Balukhali no distrito de Cox's Bazar, Bangladesh, em novembro de 2018.
Vincenzo Livieri

Com certeza, a raiz do problema está em Mianmar, onde ainda vivem entre 550 mil e 600 mil rohingyas. Muito pouco se sabe sobre a saúde e o status humanitário daqueles no norte de Rakhine. Nossos repetidos apelos de acesso a essa região continuam a ser ignorados ou negados pelas autoridades. Apesar do ultraje internacional pela violência cometida pelas forças de segurança de Mianmar contra os rohingyas em 2017, a pressão externa produziu pouca ou nenhuma mudança efetiva. Discriminação e segregação persistem, e um pequeno número de rohingyas continuou a fugir para Bangladesh em 2018.

Por mais de duas décadas, temos assistido a uma constante deterioração dos direitos humanos e da condição humanitária em Rakhine. As contínuas restrições de acesso ao norte e a detenção efetiva de rohingyas em campos da região central mostram-se como sérios dilemas operacionais e éticos para MSF. A capacidade de ver e falar sobre o que se passa ainda é a razão central para nossa presença contínua, mesmo que nossa capacidade de responder às necessidades de saúde tenha sido consideravelmente reduzida.

À medida que o olhar do mundo passa dos rohingyas para a próxima emergência humanitária, o desafio em 2019 e em diante será manter visível a condição de um dos grupos de pessoas mais vulneráveis do mundo. Continuaremos a oferecer serviços médicos e humanitários muito necessários e falaremos sobre a escalada das necessidades dos rohingyas em Mianmar, em Bangladesh e na Malásia, mas a indignação moral da comunidade internacional também deve ser traduzida em ações significativas, para acabar com a discriminação e a negação da cidadania, condição prévia para o retorno voluntário, seguro e digno de rohingyas a Mianmar. Os governos precisam ir além do apoio de subsistência em Bangladesh e redobrar seus esforços diplomáticos para que os rohingyas tenham chance genuína de uma vida melhor.